A VERDADE NÃO SERIA BASTANTE PLAUSÍVEL SE FOSSE FICÇÃO - Richard Bach

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Na estrada de Santos


“Se você pretende saber quem eu sou, eu posso lhe dizer. Entre no meu carro, e na estrada de Santos, você vai me conhecer”. Em 1958, certamente o rei Roberto Carlos ainda não havia composto a música “As Curvas das Estrada de Santos”, mas sua inspiração pode ter vindo da II Subida de Montanha, prova de velocidade realizada na Estrada Velha de Santos, o antigo Caminho do Mar. Está certo que Roberto Carlos se referia à estrada nova, a serra da Via Anchieta – hoje bem velha –, mas naquela época os dois caminhos eram normalmente utilizados pelos paulistanos para ir e vir da Baixada Santista.



De forma parecida com o que ainda se pratica em São Paulo, no Pico do Jaraguá, a prova do Caminho do Mar reunia aficionados por carros e competições no pé da serra, para cumprir a subida de 7,2 km no menor tempo possível. O regulamento da prova dividia os automóveis em duas classes, os normais e os especiais. Os primeiros eram originais de fábrica, com preparo livre porém mantidas as características principais, com classificação em quatro categorias, até 250 cm3, até 1.300 cm3, até 2.000 cm3 e Força Livre. Os especiais eram carros de corrida, com qualquer motor, chassi, suspensão e freios, separados em duas categorias, até 2.500 cm3 e Força Livre.





No dia da corrida, exatamente 10 de agosto de 1958, o clima era de euforia. O público se posicionou ao longo do trajeto, como em provas de rali, para ver de perto carros e pilotos.



Na largada o tempo estava bom, mas da metade do percurso até o topo da serra, mais precisamente da chamada Curva da Morte até o fim, a neblina tomou conta. Prevista para a 8h00, a largada foi dada às 10h15, porque os organizadores queriam esperar o tempo melhorar, sem sucesso. Mesmo assim, a prova transcorreu bem, apesar da visibilidade prejudicada.




Inaugurando a Força Livre da classe Especial, Rafael Gargiulo, pilotando um monoposto com motor Ford 8BA, estabeleceu o recorde da pista, com o tempo de 7min13. Na categoria de até 2.500 cm3 , o vencedor foi Plínio de Cerqueira Leite, com um Volkswagen especial, protótipo parecido com o Porsche 550 Spyder, em 7min51.



Foi a classe normal, no entanto, que reuniu a maior quantidade de participantes, todos com modelos mais conhecidos do público, como DKW, Fusca, MG ou Porsche. O vencedor da categoria até 250 cm3 foi Álvaro Andrade, com Romi Isetta; até 1.300 cm3 venceu Flavio Del Mese, com DKW; até 2.000 cm3 o Porsche de Guy Whitney foi mais rápido e na Força Livre venceu a prova Waldemyr Costa, com Nash Healey. Na categoria até 1.300 cm3 havia ainda MG, Simca 1200 francês, e Fiat 1100. Até 2.000 cm3 participaram Citroën 11 Légère e Porsche.

 Emilio Zambelo e a carretera Fiat Stanguelinni

Quanto aos pilotos, além dos vencedores da classe especial participaram alguns nomes hoje conhecidos, como o designer Anísio Campos, com um Simca Conversível 1952, Hans Ravache e Godofredo Viana Filho. Destacaram-se o piloto Flavio Del Mese, que saiu do Rio Grande do Sul com seu DKW 1951 para participar da prova, Wilson Fittipaldi, que narrou a prova pela Rádio Panamericana, e Primo Carbonari, que realizou um filme jornalístico da prova para divulgá-la nas salas de cinema de todo o Brasil.


Muitos não puderam participar da II Subida de Montanha por uma razão hoje óbvia, mas na época não muito lembrada pelos pilotos: a falta do capacete. A comissão organizadora foi firme na questão e seguiu à risca as regras da FIA – Federação Internacional de Automobilismo, com a supervisão da Comissão Desportiva Regional do ACB, o Automóvel Clube Brasileiro de Angelo Juliano e Osvaldo Fanucchi, e pela Polícia Rodoviária. A entrega dos prêmios, troféua e medalhas, foi feita na sede do ACB, na rua Brigadeiro Luiz Antônio, em São Paulo.

Flávio Del Mese

Para a realização desta reportagem utilizei material gentilmente cedido pelo engenheiro Jorge Lettry, chefe da equipe Vemag de Competição nos anos 60, que esteve na prova como repórter do Jornal HP, um dos organizadores da II Subida de Montanha. As fotografias são de seu acervo pessoal, assim como as informações retiradas de seu texto feito para o antigo jornal. No dia em que estive com Lettry em sua casa, no município de Atibaia, SP, para que ele me contasse esta história, passamos nada menos que oito horas conversando sobre automóveis, corridas e pilotos. Jorge Lettry faleceu com 78 anos de idade.



A próxima vez que você passar pela estrada de Santos, hoje Rodovia dos imigrantes, a mais moderna do país, lembre-se que há mais de 50 anos a história era outra, e que, antes de Roberto Carlos imortalizar a Via Anchieta, heróicos pilotos fizeram história no antigo Caminho do Mar.




























 O jovem Anísio Campos

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NT: Ontem recebi essas fotos de meu amigo Luiz Guimarães, que havia recebido de seu amigo Frederico Hoffmann, hoje descobri que a postagem original é do Gabriel Marazzi e mostro essa preciosidade a vocês. Agradeço aos amigos Guima, Gabriel e Frederico. Um forte abraço.

Rui Amaral Jr 

10 comentários:

  1. Rui, o que dizer deste resgate histórico ? Sensacional. Bom demais.

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  2. Maravilha de fotos! Tremendo registro de época.

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  3. Parabéns Rui,

    Espetáculo de matéria.
    Sensacional e de ótima qualidade editorial.

    Abs

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  4. Realmente uma alegria ver fotos tão boas e o melhor de tudo, 2 DOIS!!!! Légère na pista, mesmo estando um bem baleadinho... rsrsr. O que eu aprontei nessa estrada, subindo ou descendo, só pode ser explicado pelo espirito do meu avô materno, dando uma força, posto que em 1927 ! morreu num acidente descendo a serra com o fordinho que tinha...(minha mãe tinha 3 anos) Só o saca rolha e mais uma renca de curvas que tem por lá é um desafio fenomenal. Ocasionalmente tem passeios monitorados com limitação de veículos "para preservas as matas da poluição" Seria cômico se não fosse ridículo. Quem sempre sabe disso é o Romeu mas o danado só avisa depois. Sei que de bike, skate e a pé é possivel descer os 7 km da serra mas desconheço como funciona isso. Adorei o post Rui...

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  5. Rui,

    que momento ímpar... poder conhecer melhor a nossa história automobilística é sensacional...

    ótimas fotos e um grande texto...

    parabéns

    abs...

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  6. Rui,

    Matéria fantástica tanto nas imagens como no texto. Parabéns a você e ao Gabriel Marazzi - e obrigado por compartilhar!

    Além dos pilotos que se tornariam mais conhecidos, como o Anísio Campos e o Flávio Del Mese, reconheço aí o nome de Wlademir Costa, que se não me engano era comandante de avião e foi um dos melhores particulares entre que correram em Interlagos com as Berlinetas.

    Reconheço também o nome de Plínio Cerqueira Leite, mas por um outro motivo: é que ele e meu irmão foram amigos e também colegas na arquitetura do Mackenzie.

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    1. meu avo, plinio de cerqueira leite ganhou a categoria ate 2500cm3 em seu volkswagen replica do porsche 550 spyder, construido por ele mesmo com motor da porsche importado... foi vendido nos anos 60 acho eu, ainda procuro encontrar este carro para compralo de volta...

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  7. Fabiani C Gargioni #2723 de novembro de 2012 às 23:04

    Grande Rui, estou sem palavras, um show parabéns à vc e ao Gabriel!!!

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  8. Espectaculares fotos, hermosos autos, bello recuerdo. Felicitaciones por la entrada y gracias por compartirla con todos nosotros.
    Abrazos!

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  9. Um resgate histórico. Parabéns o grato por compaartilhar material tão rico. Um forte abraço...

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